Nào gosto de culpar ninguém. Aliás, até gosto. Mas eu não gosto mesmo, é de jogar a culpa em alguém numa tentativa de fugir da raia. A Cláudia não seria boba em não perceber que eu poderia estar mentindo. Então, nada além da verdade. Essa nunca foi uma das minhas principais políticas, mas até então naquele momento foi a que eu resolvi adotar.
- Essa situação já vem se arrastando por meses. Estamos juntos basicamente por uma questão física ou sejá lá o que for. Não existe mais aquele amor que um dia era mais forte do que o sono e do que qualquer outra coisa. Não existe mais aquele calor todo que a ansiedade nos causava. Entende Cláudia?
- Entendo sim filho, um dos motivos para que eu viva sozinha nessa minha idade, é isso. Não que eu recomenda isso para alguém, mas é que essa situação é cada vez mais repetitiva e comum. Mas enfim, você não quer que ela se vá né?
- Não é o fato de ela partir... é o fato de eu não estar com ela! E eu já te disse, não quero atrapalhar mais a vida dela. Ela tem os planos dela e tudo mais.
Um grande silêncio se iniciou a partir dali. Me levantei levei nossas xícaras de café para a copa e me dirigi até a porta.
- Vou para o meu apartamento Cláudia. Muito obrigado mais uma vez pelo seu tempo e ouvidos.
Ela me olhou com aquele olhar materno de sempre. Era fantástica a energia e a segurança que ela conseguia me transmitir. Eram só dois andares de diferença do andar de Claúdia até o meu. Subia por aquelas escadas tentando tirá-la da cabeça. Na minha porta havia muita correspondência, entre elas havia meu cheque da firma e um postal de meu pai. Era tamanha a assiduidade dele em me escrever. Por outro lado meu desinteresse naquilo tudo era totalmente equivalente. Era evidente que ele tentava consertar tudo o que havia feito naquele incidente, mas não serão postais e cartas suficientes que me conformariam. Na minha sala se encontrava o jornal de terça passada com aquelas notícias sujas dos políticos da cidade. Minha TV permanecera ligada desde o dia do acidente, aproveitei para assistir o noticiário local. Peguei algo pra comer na geladeira e me reclinei na poltrona. Ficaria por horas naquela posição. O som da televisão só serviria para quebrar o silêncio, pois meu pensamento se encontrava totalmente preso em você. O telefone tocou e de um súbito salto me dirigi até a mesinha.
- Alô?
- Antes de qualquer coisa, eu te peço para que você não me procure mais. Sairei para a capital às 23 horas e não quero que nada atrapalhe minha viagem...
- Luiza, isso é realmente necessário?
- Já não sei mais se é ou não... - suspirando forte - Mas não podemos continuar dessa maneira. Eu sinto muito...
Essas seriam as últimas palavras que eu ouviria dela antes da viagem. E ela ainda desligou o telefone sem sequer o que eu pensava de tudo. Peguei minha garrafa de vinho, desliguei a TV e me sentei na sacada. Agora sim, seria só eu e as estrelas.
segunda-feira, 22 de março de 2010
terça-feira, 16 de março de 2010
Sete
Cláudia sempre foi uma ótima síndica, sempre ajudou todos os moradores, até mesmo quando eu colocava música alta ela dava um jeito de conversar com o Miguel para que ele esfriasse a cabeça e que fossemos ouvir músicas juntos. Graças a isso hoje até trocamos discos. Mas o melhor da Cláudia é que ela realmente conseguia me acalmar quando sabia que eu estava com algum problema. Só de olhar nos meus olhos ela já sabia que eu não estava bem e não foi muito diferente dessa vez.
- É a Luiza de novo? - disse fitando-me da recepção do prédio.
- Não dá pra te enganar né? - seguimos por aquela escadaria escura, já fazia meses que o elevador quebrara e pela sua bondade em diminuir o preço do condomínio a verba mal dava para a pintura do prédio.
- Soube do seu acidente, andou se embriagando de novo né?
- Eu estava com sono, eu dirigiria bem até morto, mas era realmente sono...
- ... mas me conte da Luiza, isso é o que realmente importa e isso é o que vem causando todos os seus maiores problemas. - ela me dizia isso numa íncrivel tranquilidade, sua testa frizava mas não por preocupação e sim pela sua idade elevada, seus cabelos grisalhos nunca tingidos mostravam a maturidade de sua segurança, ela realmente sabia me confortar.
- Bem Cláudia, ela vai se mudar pra capital. - dei uma pausa e respirei - A transferência dela finalmente saiu... Alias sempre saiu, só que agora tem estágio e vai dar pra ela se sustentar por lá... Céus, eu já não sei mais o que eu faço, se ela for eu não sei o que eu estarei fazendo mais por aqui! E eu não quero ir com ela, já atrasei demais essa faculdade dela!
- Calma, não se afobe! - ela entrou no seu apartamento e já foi entrando para a cozinha, era de costume nessas situações ela preparar um café, pois as nossas conversas sempre duravam muito.
- Não dá pra ficar calmo! - gritei, ela me olhou me repreendendo e eu me desculpei, seria uma conversa longa e não seria interessante que meu tratamento com ela mudasse dessa maneira.
- É a Luiza de novo? - disse fitando-me da recepção do prédio.
- Não dá pra te enganar né? - seguimos por aquela escadaria escura, já fazia meses que o elevador quebrara e pela sua bondade em diminuir o preço do condomínio a verba mal dava para a pintura do prédio.
- Soube do seu acidente, andou se embriagando de novo né?
- Eu estava com sono, eu dirigiria bem até morto, mas era realmente sono...
- ... mas me conte da Luiza, isso é o que realmente importa e isso é o que vem causando todos os seus maiores problemas. - ela me dizia isso numa íncrivel tranquilidade, sua testa frizava mas não por preocupação e sim pela sua idade elevada, seus cabelos grisalhos nunca tingidos mostravam a maturidade de sua segurança, ela realmente sabia me confortar.
- Bem Cláudia, ela vai se mudar pra capital. - dei uma pausa e respirei - A transferência dela finalmente saiu... Alias sempre saiu, só que agora tem estágio e vai dar pra ela se sustentar por lá... Céus, eu já não sei mais o que eu faço, se ela for eu não sei o que eu estarei fazendo mais por aqui! E eu não quero ir com ela, já atrasei demais essa faculdade dela!
- Calma, não se afobe! - ela entrou no seu apartamento e já foi entrando para a cozinha, era de costume nessas situações ela preparar um café, pois as nossas conversas sempre duravam muito.
- Não dá pra ficar calmo! - gritei, ela me olhou me repreendendo e eu me desculpei, seria uma conversa longa e não seria interessante que meu tratamento com ela mudasse dessa maneira.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Seis
Você estava aflita, era claramente visível esse seu estado. No meu maior espírito de culpa me mostrava bilhões de vezes mais calmo e seguro do que você.
- Não queira saber o que aconteceu comigo aquela noite...
- ... e não quero mesmo. Quero apenas te dizer que minha transferência saiu mesmo. Com estágio e tudo.
Uma lágrima caiu de seu olho esquerdo e na diferença de alguns milésimos de segundo outra escorreu do seu olho direito. Então parecia mesmo que aquele era nosso fim decretado. E eu ainda consegui estragar praticamente todo o final da história.
- Luiza... e você quer mesmo ir?
Você não respondeu, só deu a partida e saiu por aquela avenida. Ainda consegui ver seus olhos brilhando quando você olhou pra trás.
Eu sempre vi aquele seu curso de Relações Públicas como um grande problema. E não é que no fundo eu sempre estive certo. Minha cabeça voltou a latejar pelo caminho inteiro e eu realmente não sabia mais o que iria fazer quando chegasse em meu apartamento. Vai ser bastante complicado quando você realmente partir.
- Não queira saber o que aconteceu comigo aquela noite...
- ... e não quero mesmo. Quero apenas te dizer que minha transferência saiu mesmo. Com estágio e tudo.
Uma lágrima caiu de seu olho esquerdo e na diferença de alguns milésimos de segundo outra escorreu do seu olho direito. Então parecia mesmo que aquele era nosso fim decretado. E eu ainda consegui estragar praticamente todo o final da história.
- Luiza... e você quer mesmo ir?
Você não respondeu, só deu a partida e saiu por aquela avenida. Ainda consegui ver seus olhos brilhando quando você olhou pra trás.
Eu sempre vi aquele seu curso de Relações Públicas como um grande problema. E não é que no fundo eu sempre estive certo. Minha cabeça voltou a latejar pelo caminho inteiro e eu realmente não sabia mais o que iria fazer quando chegasse em meu apartamento. Vai ser bastante complicado quando você realmente partir.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Cinco
Como eu queria que existissem TVs nos hospitais... E olha que eu me contentária até com um noticiário trágico local que estivesse passando. Já era cedo e eu acordava bem lentamente. Já não sabia se tomava esse café frio que me deixaram aqui juntos com essas rosas brancas ao lado dessa maca. Eu realmente não gosto de flores, me lembram enterro e na minoria das vezes me lembram você. Você e sua doentia mania de preferir flores do que qualquer outro tipo de presente.
O dia amanhecia bastante nublado e sol se mostrava bem tímido para qualquer aparição. Eu nunca estive tão ancioso, eu saberia que você não iria me ver, mas mesmo assim eu sentia que você poderia mudar de idéia.
(...)
Minha alta foi sair às nove e meia da manhã e só agora percebi que tinha acordado bastante cedo. Me dirigia até a recepção quando eu me lembrei que não havia mais carro. Eram treze quarteirões dali até meu apartamento. Pra quem não saia mais sem carro seria uma "aventura" e tanto. Peguei a receita médica, minha jaqueta e sai em direção a galeria. Ao atravessar a rua, percebo um som que não ouvia há mais de um ano. Era você e sua velha lambreta. Fixei meu olhar no seu e você desligou a moto. Meu dia estava prestes a começar.
O dia amanhecia bastante nublado e sol se mostrava bem tímido para qualquer aparição. Eu nunca estive tão ancioso, eu saberia que você não iria me ver, mas mesmo assim eu sentia que você poderia mudar de idéia.
(...)
Minha alta foi sair às nove e meia da manhã e só agora percebi que tinha acordado bastante cedo. Me dirigia até a recepção quando eu me lembrei que não havia mais carro. Eram treze quarteirões dali até meu apartamento. Pra quem não saia mais sem carro seria uma "aventura" e tanto. Peguei a receita médica, minha jaqueta e sai em direção a galeria. Ao atravessar a rua, percebo um som que não ouvia há mais de um ano. Era você e sua velha lambreta. Fixei meu olhar no seu e você desligou a moto. Meu dia estava prestes a começar.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Quatro
Minha única opção seria de fato passar a noite naquele hospital... Na manhã seguinte a primeira coisa que faria seria te procurar, mas ainda é cedo para prever algo, minha cabeça lateja o bastante para eu poder me preocupar. Já nem acredito que isso seja causado pelo corte, pois meus pensamentos abarrotam toda a minha cabeça, como um labirinto de dilemas que se propaga me causando uma nostalgia seguida de um breve anseio. Passarei mais uma daquelas noites efusivas que nunca me deixam dormir. Novamente me vem a recordação de como tudo aquilo começou, eu meio que servia de consolo para que você conseguisse esquece-lo. A sensação de ser um tipo de estepe já nem me incomodava mais, porque eu sabia que você logo passaria a gostar de mim, só não imaginava que isso viria com essa amplitude toda. Naquela época você nem tinha o mesmo penteado e eu de fato não sabia absolutamente nada sobre você. Hoje a situação se reverteu, sei absolutamente tudo de você, mas já não consigo mais saber quem eu sou.
(...)
Já é tarde e a minha respiração começa a ficar menos ofegante, imagino que o sono logo me atacará e eu poderei descansar meu corpo, porque minha mente continuará incessante.
(...)
Já é tarde e a minha respiração começa a ficar menos ofegante, imagino que o sono logo me atacará e eu poderei descansar meu corpo, porque minha mente continuará incessante.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Três
A embriagues nunca me atrapalhou a dirigir. Mas dessa vez eu não conseguia, seria suicídio continuar. Eis que resolvo voltar. Já era tarde demais pra continuar e o sono insistia em me atordoar.
(...)
Já é de manhã e eu me deparo com você batendo na janela do carro tentando me acordar, você chora muito e eu não consigo entender porque... Quando finalmente voltei a mim consegui entender o porque de tudo. A colisão no portão da sua casa e esse corte profundo na minha testa conseguiu assustá-la bastante. Eu realmente não sei como fui parar ali, mas a vontade instantânea de rir era maior do que todos os até então problemas causados. Agora sim você tem motivos o bastante para não me entender. Eu caia em gargalhada enquanto sua mãe já acordava e abria a janela do quarto dela. Seus vizinhos começavam a fazer o mesmo e em poucos instantes já havia uma grande aglomeração de curiosos.
(...)
- ...amanhã cedo ele terá alta, o prejuízo maior foi com o carro.
- Mas e quanto ao corte?
- 7 pontos, mas tudo correu bem.
Aos dizer essas palavras o doutor realmente transbordava calma, mas você não conseguia disfarçar sua aflição. Foi a partir desse diálogo que percebi que é realmente necessário recapitular tudo. Estávamos no fundo do poço mas você ainda conseguia gostar de mim. Aonde diabos eu fui deixar a minha consideração por você?
(...)
Já é de manhã e eu me deparo com você batendo na janela do carro tentando me acordar, você chora muito e eu não consigo entender porque... Quando finalmente voltei a mim consegui entender o porque de tudo. A colisão no portão da sua casa e esse corte profundo na minha testa conseguiu assustá-la bastante. Eu realmente não sei como fui parar ali, mas a vontade instantânea de rir era maior do que todos os até então problemas causados. Agora sim você tem motivos o bastante para não me entender. Eu caia em gargalhada enquanto sua mãe já acordava e abria a janela do quarto dela. Seus vizinhos começavam a fazer o mesmo e em poucos instantes já havia uma grande aglomeração de curiosos.
(...)
- ...amanhã cedo ele terá alta, o prejuízo maior foi com o carro.
- Mas e quanto ao corte?
- 7 pontos, mas tudo correu bem.
Aos dizer essas palavras o doutor realmente transbordava calma, mas você não conseguia disfarçar sua aflição. Foi a partir desse diálogo que percebi que é realmente necessário recapitular tudo. Estávamos no fundo do poço mas você ainda conseguia gostar de mim. Aonde diabos eu fui deixar a minha consideração por você?
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Dois
Pelo meu desgaste físico eu aguentaria passar mais horas nesse bar, mas pelo meu cansaço mental e por seu desinteresse cada vez mais visível, minha renúncia por aquilo tudo só se aproximava... Você já me espera na porta e eu ainda tento convencer o garçom de que aquilo tudo não passou de uma pequena discussão de relação. Chovia fino e o carro já se encontrava coberto por milhares de pingos. Em ocasiões distintas eu te protegeria da chuva, mas dessa vez eu só abro a porta... Você entra no carro e como em todas as outras vezes já abre o porta luvas em busca de qualquer disco só pra não ter que escutar o meu favorito. Por mim poderiamos sair sem ouvir nada, mas sua insistência em não ouvir The Police é maior do que qualquer coisa. O frio no carburador ocasiona um atraso e a sua ansiedade já começava a se tornar uma irritação para nós. Depois de três tentativas finalmente nos locomovemos e veja só a maior surpresa! O disco que estava tocando era o próprio que fora sempre evitado. Procurei por seus olhos e você me respondeu com um sorriso breve. Percebo tudo, desvio meu curso e sigo em direção ao viaduto, nosso velho viaduto de sempre. Encosto o carro e você sai em direção as luzes... Nós passávamos madrugadas inteiras ali. Observando as luzes dos prédios se ascendendo e apagando. O efeito que a chuva causava era incrível, todo aquele asfalto molhado, todas as luzes se refletindo na água. Eu realmente hesitei em te beijar antes, mas o local, a situação e as sirenes não nos dava outra escolha... É notável reparar que passamos horas sem dizer nenhuma palavra e que o som do silêncio já não nos constrange mais... Já era tarde e você realmente precisava descansar... Ainda sem dizer nada nos dirigimos até sua casa. Eram poucas casas dali. Você suspirou quando avistamos sua casa, sem entender eu prossegui. Até que finalmente, ocorre nosso primeiro diálogo:
- Você vem amanhã?
- Não tenho certeza - fitei-a com sinceridade.
Ela não olhou mais para trás. Eu esperei, mais nada aconteceu. Dessa vez fui eu quem troquei o disco. Arranquei o carro... Eu tinha que sair dali. Não adiantava mais fingir. Minha noite ainda não tinha acabado.
- Você vem amanhã?
- Não tenho certeza - fitei-a com sinceridade.
Ela não olhou mais para trás. Eu esperei, mais nada aconteceu. Dessa vez fui eu quem troquei o disco. Arranquei o carro... Eu tinha que sair dali. Não adiantava mais fingir. Minha noite ainda não tinha acabado.
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